| São Paulo, quarta-feira, 06 de julho de 2007 |
Folha de São Paulo |
Ambiente integral MILÚ VILLELA O ensino das questões ambientais tem lugar próprio na nova escola que precisamos construir. É tão fundamental quanto a ética. |
EMBORA A cobertura da imprensa tenha sido tímida, a Câmara dos Deputados ensaiou nos últimos dias levar a votação projeto de lei que insere a matéria de meio ambiente no currículo das escolas de ensino médio e fundamental. A iniciativa merece aplausos e requer vontade política e energia para ser levada a cabo. De fato, a formação intelectual formal hoje requer o conhecimento das questões ambientais. Conter o estágio de degradação do meio ambiente a que chegamos e estabelecer um pacto social para resguardar os recursos naturais que são essenciais para a coletividade exigirá um nível razoável de compreensão do problema e uma predisposição para mudanças de hábitos cotidianos. No ambiente da escola,
sem dúvida alguma, é possível
lançar as primeiras sementes de uma transformação
cultural. Explicar desde cedo às crianças e aos jovens
o impacto ambiental de cada iniciativa individual ou coletiva é um
primeiro passo para reverter o caos em que estamos enveredados. Não é preciso
andar muito para observar que é absolutamente
incompatível com os tempos atuais o volume de descarte irresponsável
de materiais que potencialmente poderiam passar por processos de
reciclagem. Também não é preciso muito esforço
para constatar que gastamos água e energia de forma pouco
responsável.
Uma espiada em nosso cotidiano é suficiente para constatar
o descaso com recursos estratégicos. A transformação tem que ser contínua, e o esclarecimento
escolar não deve ter como objetivo apenas mudar condutas mas
também desenvolver o espírito crítico dos alunos
para que, mais adiante, eles possam fazer escolhas e cobrar das empresas
e governos as atitudes que lhes foram ensinadas em sala de aula. Se cada um dos brasileiros sair da escola sabendo que se devem preservar matas ciliares para garantir a subsistência dos rios, se cada um dos nossos jovens ingressar na vida adulta consciente de que não deve jogar lixo nas ruas, que não deve desperdiçar água e que deve economizar energia, se cada um de nós perceber que pode adotar novas condutas e que essa mudança pode gerar resultados para todos, então teremos dado um salto fantástico para combater esse que se converteu num dos piores problemas da atualidade. O Brasil é o gestor de uma das mais promissoras idéias no campo da energia limpa. O álcool brasileiro vive hoje seus dias de glória e já assume ares de promessa para substituir os combustíveis fósseis, que há anos consomem as camadas protetoras da atmosfera. Poderíamos dar o exemplo também no campo da formação. Introduzir o ensino do meio ambiente na grade escolar pode resultar na formação de gerações inteiras preparadas para viver num mundo pautado pelo conceito da sustentabilidade. A idéia aventada na Câmara dos Deputados é salutar e pode fazer diferença. Chegou o momento de abraçarmos a idéia do "ambiente integral". |
| Milú Villela, presidente do Faça Parte - Instituto Brasil Voluntário, é embaixadora da Boa Vontade da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e coordenadora do Comitê de Articulação do Compromisso Todos pela Educação, além de presidente do MAM (Museu de Arte Moderna) e do Instituto Itaú Cultural. |